A Carta da Força: Perseverança, nenhuma culpa.
- Patricia Carvalho
- há 3 dias
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A Carta da Força no Tarot costuma ser descrita como a imagem de uma mulher domando um leão. E sempre que vamos estudar uma carta, não podemos esquecer de todos os símbolos com seus significados isolados. No geral, essa carta é abordada como a força sutil sobre os instintos: fala sobre coragem para enfrentar grandes problemas, força interior, esse poder interno do eu divino. E tudo que falamos de divino podemos dizer que é infinito. Na prática, também fala sobre a necessidade de calma em dias turbulentos. Mas eu acredito que essa carta represente muito mais do que isso.

Na interpretação tradicional, a Força mostra justamente a delicadeza diante de algo feroz, primitivo, voraz — algo que, avaliado pela mente racional, pareceria mais forte (no sentido de força motora, emocional, material etc) do que a própria figura da mulher. O leão, por si só, é um símbolo de status e liderança no reino animal. E a forma como ele é domado também importa: não é pela violência, mas num gesto de controle e direção. Somam-se a isso as cores das vestimentas e o símbolo da lemniscata no topo da cabeça da personagem, reforçando como é uma carta rica em significado.
Eu gosto de abordar as cartas de acordo com os momentos que estou vivendo, as situações que me chamam a atenção e, principalmente, como esses arquétipos se aplicam na vida cotidiana. Porque, apesar de vivermos grandes problemas, eles não ocupam a maior parte do nosso tempo de vida. Normalmente, essas ondas grandes de dificuldade duram um período, mas é a vida cotidiana — a rotina, o que fazemos repetidas vezes — que revela muito mais sobre quem somos do que os grandes acontecimentos.
E é aí que, pra mim, essa carta ganha ainda mais profundidade: ela fala sobre a força que precisamos para nos levantar da cama, trabalhar, ir para a academia, estudar e seguir a vida. Ela fala sobre aquilo que está diariamente no nosso caminho e que, muitas vezes, transformamos em grandes leões. E isso acontece porque, dentro de nós, essas coisas são realmente difíceis — mesmo que, aos olhos de outras pessoas, não pareçam. Só cada pessoa sabe avaliar o tamanho da própria dor, então não devemos minimizar o sofrimento alheio. Mas também não devemos nos tornar vítimas, porque essa carta não fala sobre isso. Não existe uma vítima abaixo do leão; pelo contrário: existe alguém domando-o.
Talvez por isso a Força seja tão sutil: ela não é sobre vencer uma vez, é sobre vencer todos os dias — e vencer sem se destruir no processo, visto o semblante calmo da mulher da imagem. Nesse ponto, eu sempre lembro de uma ideia associada a Aristóteles: a virtude como algo que se constrói no hábito, na repetição, na escolha diária. Ou seja, não é um gesto heroico isolado que muda a vida — é o conjunto de pequenas ações que, somadas, formam quem a gente está se tornando.
E por isso a representação de uma mulher faz tanto sentido: não é algo bruto, agressivo, ou intenso, mas uma força aplicada de maneira gradativa e constante, no tempo certo. Na vida prática, um exemplo muito claro é alguém que precisa iniciar a prática de atividades físicas. Para essa pessoa, começar pode ser como lutar contra um leão — especialmente se ela estiver acima do peso, insegura com a imagem e com medo de se expor. Todos esses fatores pesam ainda mais. Mas a Força não fala de uma grande luta; ela fala das pequenas batalhas.
Eu penso que, para uma pessoa sedentária, é muito melhor fazer 5 minutos de exercícios todos os dias do que ir uma vez à academia e ficar lá 2 horas pegando peso. No dia seguinte, o corpo vai doer porque não estava preparado; depois, a pessoa fica mais dois, três dias se recuperando, se desmotivando e adiando o recomeço. Ao invés disso, começar de maneira suave — em casa mesmo — com movimentos leves, como agachamento livre, alongamentos, giros de quadril e exercícios simples que preparam o corpo. E, gradativamente, aumentar o ritmo e criar pequenas rotinas. Isso não significa pagar academia ou se forçar a um formato; significa se propor, de início, a pequenos movimentos.
Essa é a sutileza que essa carta representa. Porque, se você pensar, 5 minutos por dia é melhor do que nada. E ao final do mês você terá feito 150 minutos de exercício — o que já pode ser muito mais do que você fez no ano inteiro anterior. No mês seguinte, aumente para 6 minutos, e assim por diante. A comparação é sempre um crescimento de você para você. Porque, quando tentamos nos encaixar em formatos pré-formatados, existe uma tendência maior de fracasso e frustração, ainda maior se essa comparação for feita com outras pessoas.
E aqui entra muito do que as filosofias orientais trazem, como no Tao Te Ching: a ideia de que grandes caminhos se abrem com passos simples. É como se a carta da Força lembrasse que você não precisa dominar o leão em um dia — você precisa apenas dar um passo hoje, mais um amanhã e continuar. E muitas pessoas aplicam essa filosofia, por exemplo, no caso de vícios: “só por hoje eu não vou beber”. Isso ajuda o cérebro a se acostumar com um desafio mais curto e, por consequência, com uma recompensa mais rápida. Ou seja: eu só preciso fazer isso 1 vez. É como “enganar” a nossa mente para que ela não entenda que é um processo demorado; isso pesa muito menos e permite que, naturalmente, essa nova escolha se torne um hábito, quando esse comportamento é repetido diariamente. É uma sabedoria muito alinhada com a energia dessa carta: suavidade não é fraqueza; suavidade é estratégia, é inteligência, é presença, o que pode ser feito hoje!
Lembre-se: você ainda terá bons anos de vida, então não queira um resultado rápido demais. Todos nós queremos recompensa imediata, mas, no caso dos exercícios, essa é uma prática para a vida toda. Então por que começar de um jeito tão intenso? Encontre algo com que você se identifique e comece a enfrentar seus “leões” de forma sutil, com pequenos movimentos aplicados na rotina, na vida diária — até porque todo mundo tem 5 minutos pra isso, assim como para qualquer outra prática.
Quer criar o habito de ler mais? Leia um parágrafo por dia, uma página, não importa. Não coloque metas grandiosas; coloque metas pequenas. Assim, a chance de sucesso é muito maior. E o mais importante: tenha disciplina. Porque não adianta fazer pouco e não manter. A maior força aplicada é manter disciplina e perseverança e cumprir essas metas com você mesma. Uma frase que uso muito como um mantra na minha vida é: “Perseverança. Nenhuma culpa.” – I Ching.
Combinado? E você: qual pequeno objetivo você pode começar hoje?
Abraços
Patricia Carvalhô
Flor de Cerejeira!




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